Felipe estava cansado. Atuou durante oito anos como policial militar, entregou a alma à profissão, fora um defensor da justiça incansável, numa devoção quase mórbida. Nesse tempo cumpriu seu dever como um cão leal da delegacia, foi um soldado exemplar, sem em segundo algum vacilar ou questionar seu ofício. Os incontáveis e longos plantões, rondas, as batidas, eram para ele muito mais que o seu dever, sua missão no mundo, o motivo de estar vivo. Nunca medira esforços para servir de dedos do longo braço da lei. Acreditava que a missão de ser policial era a mais honrada que poderia existir num mundo onde o crime tomava a liberdade dos bons cidadãos; dava as ruas aos dignos, a luz do amparo aos que sentiam o breu do medo da criminalidade.
O dinheiro sujo correndo de mãos em mãos, ele desviava o olhar, poeiras brancas sorvidas por narinas de seus companheiros, ele preferia ver como um analgésico dos menos fortes, apertos de mãos recheados de notas de alto valor entre chefões do tráfico e soldados, Felipe apenas dizia a si mesmo que nunca havia presenciado, era melhor não pensar a respeito. Espancamentos, tortura, matança e extermínio, tudo isso corria sussurrado nas ruas e dentro da delegacia, mas ninguém ousava levantar suspeita sobre quem quer que fosse, e ele muito menos, pois essas coisas só aconteciam em outras áreas, não no seu distrito, não na sua cidade, ou mesmo país.
Ele se concentrava no trabalho, que também trazia aborrecimentos. Incontáveis casos de estupros e crimes hediondos; mulheres surradas por seus parceiros, que em muitos casos resultava em morte, crianças assassinadas, mulheres disparando contra a família, maus tratos, violência por motivos mínimos; distribuição de drogas que eliminavam a prosperidade da vida de centenas de jovens e crianças, vidas perdidas por insignificâncias. Todos os horrores que era obrigado a presenciar, corroíam sua esperança na humanidade.
Até o dia que ao chegar em casa após o trabalho e ligar seu aparelho de TV, ficou por minutos observando algumas imagens do arquivo da emissora na qual o palhaço Bozo fazia suas trapalhadas. Ele se viu deslumbrado com as imagens coloridas e as micagens do personagem, com as crianças dando gargalhadas, os aplausos. O Bozo saltitava, colocava o dedo indicador no nariz para as crianças darem um beijo e sorria, erguia as mãos, virava cambalhotas.
Felipe então lembrou de todos os personagens que faziam sorrir e traziam alegria ao mundo; lembrou de Chaplin, Renato Aragão, Jerry Lewis, Palhaço Carequinha. Pensou como o mundo com aqueles homens se tornava diferente da dura realidade que ele enfrentava diariamente, como a alegria tinha poder e força; como as pessoas se comportavam diferente ao ver um palhaço. O palhaço representava um enorme sorriso, uma imensa celebração à alegria de viver e se divertir. Por isso decidiu que entregaria suas armas no dia seguinte e se tornaria um palhaço.
- Temos um palhaço doente, você vai substituí-lo nessa noite. – Disse o gerente do circo por detrás de uma parede de nicotina. Felipe ouviu aquilo com seu coração palpitando de emoção e apertou a mão do homem sem discutir salário ou condições de trabalho.
No dia da apresentação Felipe esperava no camarim sua hora enquanto se maquiava diante do espelho. Suas roupas colorida, largas, cheias de desenhos, eram um trabalho cuidadoso de alfaiataria extremamente bem-humorada; os sapatos tinham o triplo dos tamanhos de seus pés acostumados com as botas de soldado, na ponta de seu nariz a grande bola vermelha e reluzente, a mais forte marca de um legítimo palhaço. Ele estava emocionado até a alma.
Foi chamado então pelo seu novo nome nos auto-falantes do circo. “Respeitável público,e agora, palhaço Pankeka!”.
Ele entrou com passos miúdos, mas com movimentos nos braços de que estivesse fazendo uma maratona, deu um tropeção nas próprias pernas e se jogou no chão. O palhaço Pankeka esperava uma salva de palmas e uma onda de gargalhadas, mas o público ficou mudo. Ele se levantou e fez mais uma graça, mas ninguém riu. Fez espacato, se atirou de cabeça no chão, rolou de um lado para outro. O público dessa vez além de não rir, vaiou; a principio não todos, mas quando Pankeka se pôs de pé e olhou o público com um gesto exagerado de perplexidade, toda a platéia se juntou numa grande e maciça vaia indiscriminada. – Por que estão fazendo isso? Eu sou engraçado! Sou um palhaço, o palhaço Pankeka! – Gritou Pankeka aos prantos, enquanto muitos da platéia se levantavam para ir embora. Crianças atiravam pipocas e balas chupadas contra ele, um homem gritou de um canto: “Vai embora palhaço sem graça!”, frase que foi acompanhada de vaias ainda mais tempestuosas. – Isso é um desacato, vocês não sabem com quem estão se metendo! – Trouxe sua fúria dos pulmões o então, Cabo Felipe.
Instantes depois de Felipe sair correndo do picadeiro e quando o apresentador entrou para anunciar a próxima atração, ele voltou com a maquiagem borrada pelas lágrimas, sem a peruca e com uma arma na mão. – Vocês estão todos presos! – Gritou. “Vai à merda palhaço”, foi a resposta de alguém, que pensava ser o que Felipe tinha na mão uma pistola d´água. Mas não era, Felipe começou a disparar. Matou três da primeira fila, depois foi mirando e atirando nos que levantavam para fugir. Uma grande correria se fez no circo enquanto Felipe mirava e matava. Ao chegar à última bala do tambor, ele apontou a arma contra a própria cabeça e as luzes da ribalta apagaram quando o último disparo se ouviu.







