sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Respeitável Público


Felipe estava cansado. Atuou durante oito anos como policial militar, entregou a alma à profissão, fora um defensor da justiça incansável, numa devoção quase mórbida. Nesse tempo cumpriu seu dever como um cão leal da delegacia, foi um soldado exemplar, sem em segundo algum vacilar ou questionar seu ofício. Os incontáveis e longos plantões, rondas, as batidas, eram para ele muito mais que o seu dever, sua missão no mundo, o motivo de estar vivo. Nunca medira esforços para servir de dedos do longo braço da lei. Acreditava que a missão de ser policial era a mais honrada que poderia existir num mundo onde o crime tomava a liberdade dos bons cidadãos; dava as ruas aos dignos, a luz do amparo aos que sentiam o breu do medo da criminalidade.

Ele tentava não ver o que se punha bem diante de seus olhos e ficar surdo ao que ouvia todos os dias, ao que lhe revirava o estômago. Por isso se cansara.

O dinheiro sujo correndo de mãos em mãos, ele desviava o olhar, poeiras brancas sorvidas por narinas de seus companheiros, ele preferia ver como um analgésico dos menos fortes, apertos de mãos recheados de notas de alto valor entre chefões do tráfico e soldados, Felipe apenas dizia a si mesmo que nunca havia presenciado, era melhor não pensar a respeito. Espancamentos, tortura, matança e extermínio, tudo isso corria sussurrado nas ruas e dentro da delegacia, mas ninguém ousava levantar suspeita sobre quem quer que fosse, e ele muito menos, pois essas coisas só aconteciam em outras áreas, não no seu distrito, não na sua cidade, ou mesmo país.

Ele se concentrava no trabalho, que também trazia aborrecimentos. Incontáveis casos de estupros e crimes hediondos; mulheres surradas por seus parceiros, que em muitos casos resultava em morte, crianças assassinadas, mulheres disparando contra a família, maus tratos, violência por motivos mínimos; distribuição de drogas que eliminavam a prosperidade da vida de centenas de jovens e crianças, vidas perdidas por insignificâncias. Todos os horrores que era obrigado a presenciar, corroíam sua esperança na humanidade.

Até o dia que ao chegar em casa após o trabalho e ligar seu aparelho de TV, ficou por minutos observando algumas imagens do arquivo da emissora na qual o palhaço Bozo fazia suas trapalhadas. Ele se viu deslumbrado com as imagens coloridas e as micagens do personagem, com as crianças dando gargalhadas, os aplausos. O Bozo saltitava, colocava o dedo indicador no nariz para as crianças darem um beijo e sorria, erguia as mãos, virava cambalhotas.

Felipe então lembrou de todos os personagens que faziam sorrir e traziam alegria ao mundo; lembrou de Chaplin, Renato Aragão, Jerry Lewis, Palhaço Carequinha. Pensou como o mundo com aqueles homens se tornava diferente da dura realidade que ele enfrentava diariamente, como a alegria tinha poder e força; como as pessoas se comportavam diferente ao ver um palhaço. O palhaço representava um enorme sorriso, uma imensa celebração à alegria de viver e se divertir. Por isso decidiu que entregaria suas armas no dia seguinte e se tornaria um palhaço.

- Temos um palhaço doente, você vai substituí-lo nessa noite. – Disse o gerente do circo por detrás de uma parede de nicotina. Felipe ouviu aquilo com seu coração palpitando de emoção e apertou a mão do homem sem discutir salário ou condições de trabalho.

No dia da apresentação Felipe esperava no camarim sua hora enquanto se maquiava diante do espelho. Suas roupas colorida, largas, cheias de desenhos, eram um trabalho cuidadoso de alfaiataria extremamente bem-humorada; os sapatos tinham o triplo dos tamanhos de seus pés acostumados com as botas de soldado, na ponta de seu nariz a grande bola vermelha e reluzente, a mais forte marca de um legítimo palhaço. Ele estava emocionado até a alma.
Foi chamado então pelo seu novo nome nos auto-falantes do circo. “Respeitável público,e agora, palhaço Pankeka!”.

Ele entrou com passos miúdos, mas com movimentos nos braços de que estivesse fazendo uma maratona, deu um tropeção nas próprias pernas e se jogou no chão. O palhaço Pankeka esperava uma salva de palmas e uma onda de gargalhadas, mas o público ficou mudo. Ele se levantou e fez mais uma graça, mas ninguém riu. Fez espacato, se atirou de cabeça no chão, rolou de um lado para outro. O público dessa vez além de não rir, vaiou; a principio não todos, mas quando Pankeka se pôs de pé e olhou o público com um gesto exagerado de perplexidade, toda a platéia se juntou numa grande e maciça vaia indiscriminada. – Por que estão fazendo isso? Eu sou engraçado! Sou um palhaço, o palhaço Pankeka! – Gritou Pankeka aos prantos, enquanto muitos da platéia se levantavam para ir embora. Crianças atiravam pipocas e balas chupadas contra ele, um homem gritou de um canto: “Vai embora palhaço sem graça!”, frase que foi acompanhada de vaias ainda mais tempestuosas. – Isso é um desacato, vocês não sabem com quem estão se metendo! – Trouxe sua fúria dos pulmões o então, Cabo Felipe.

Instantes depois de Felipe sair correndo do picadeiro e quando o apresentador entrou para anunciar a próxima atração, ele voltou com a maquiagem borrada pelas lágrimas, sem a peruca e com uma arma na mão. – Vocês estão todos presos! – Gritou. “Vai à merda palhaço”, foi a resposta de alguém, que pensava ser o que Felipe tinha na mão uma pistola d´água. Mas não era, Felipe começou a disparar. Matou três da primeira fila, depois foi mirando e atirando nos que levantavam para fugir. Uma grande correria se fez no circo enquanto Felipe mirava e matava. Ao chegar à última bala do tambor, ele apontou a arma contra a própria cabeça e as luzes da ribalta apagaram quando o último disparo se ouviu.

domingo, 29 de novembro de 2009

Histórias Em Quadrinhos Para Adultos


História em quadrinhos para adultos já foi uma terminologia para erotismo e pornografia em tempos passados, em muitos casos para o público leigo e distante do universo das HQs e que buscava a satisfação básica de encontrar histórias que levavam como principal linha de conteúdo a sacanagem pura e simples. Essas HQs eram oferecidas juntamente às demais publicações destinadas ao público marmanjo, naquele canto obscuro da banca, consultado pelos (nem sempre) maiores de dezoito anos. Quanto à qualidade dessas publicações, ignorada por completa falta de senso crítico de seus leitores, podia-se ver tanto HQs de baixíssima qualidade estética e textual, quanto, mais raramente, obras com certa sofisticação, como o Catecismo de Carlos Zéfiro, que apesar do tratamento gráfico pobre, trazia uma abordagem sobre os temas eróticos/pornográficos com mais profundidade e inteligência, e claro, ele não era o único.

Mas não é nesse assunto que vou me aprofundar, vou para a outra prateleira, no outro lado da banca, onde encontramos outras HQs.
Quando nos esquivamos do termo “adulto” em se tratando de HQs, só nos restarão as publicações às crianças e jovens, e então que encontramos alguns paradigmas.

As publicações destinadas às crianças, estão bem claras ao que vieram, começando pela simplicidade e a aparência, que são inevitavelmente atrativas aos menores; não há como questionar ao primeiro contato. O objetivo óbvio de uma HQ infantil, de entreter uma mente em formação, necessitando de conteúdos em sincronia com o seu universo e que tragam narrativas de pouca complexidade, pode flutuar para outro conceito, quando analisado com maior atenção. A evidência disso toma forma quando nas páginas ingênuas de uma HQ infantil há um entrelace com o vivências adultas e algumas de suas recordações, mesmo quando de maniera muito sutil, de forma que o leitor com idade mais avançada percebe que o que foi produzido para a criança se foi desenvolvido por um autor adulto, e sob sua ótica, que será compreendida pelo outro lado, compartilhando do mesmo ponto de vista. Daí se entende por que um adulto também se diverte ao ler uma HQ infantil inteligente e de boa qualidade; apenas para citar exemplos: Peanuts, Calvin, Mafalda, entre muitos outros que têm o mesmo efeito em diversos níveis de compreensão e idades.

Já o público jovem, vai topar com os super-heróis, sempre virtuosos e movidos pelas melhores intenções. Nesse caso, a aplicação das HQs, vem para se dirigir a um leitor que acabou de se desprender da infância ou mesmo da adolescência, está na busca por novas experiências, tem em vista fronteiras a ser galgadas ao mesmo tempo em que precisa de referências de condutas com as quais vai estabelecer ligações com sua personalidade em formação definitiva. Neste caso, estamos frente a dois pólos de comportamento que devem ser colocados numa mesma idéia de narrativa: a transgressão e a virtude, que se chocam em histórias cheias de violência e trapaças, mas que dão lições de heroísmo, justiça, etc. E então as emoções do leitor jovem são evocadas num universo irreal de dicotomia, em que sempre o bem se sobrepõe ao mal. Mais uma vez o leitor adulto se identificará com essas histórias, pois novamente ele vai entrar em um enredo que fora elaborado afim de gerar empatia e identificação com o consumidor, que compartilha da mesma visão de valores do autor. Um bom exemplo de HQ que fora consumida por adultos e que, de certa forma, segue uma premissa parecida com as dos super-heróis é o TEX.

Erroneamente, ao lado das HQs destinadas aos jovens, e comercializadas junto a elas, temos as que de fato são melhor apreciadas pelo público adulto, estas têm em letras pequeníssimas em suas capas as classificações indicativas sugeridas, como o caso das produções das linhas Vertigo, Pixel e outras que tratam de temas ousados, nos quais estão inclusos a violência urbana, sexual, perversões, uso de narcóticos, ocultismo, religião, doenças mentais e outras situações que satisfazem mentes mais maturas. Comumente nessas HQs, os textos são sofisticados, permeados pela literatura universal, psicologia, política, fatos históricos e atuais, em abordagens mais elaboradas e bem construídas, explorando com mais ousadia os personagens e usando de técnicas narrativas apuradas. Nelas vemos os anti-heróis e a utilização do “politicamente incorreto”.

Vemos também que nem tudo o que parece inocente é de fato inocente. Como no caso dos mangás, que a princípio quando folheados e com uma rápida olhada em suas capas, são considerados um entretenimento destinado a crianças e jovens sem más intenções, quando eles estão recheados de violência, vilania, Fun Service (pornografia leve) e assassinatos.

Na minha opinião HQs são para todos.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Máquinas e Malucos


Não gosto de pagar por assistência técnica para meu computador, tenho como hábito fazer a manutenção de minha máquina, por mais trabalhoso que seja. Nessa semana formatei e instalei o sistema operacional, o que me tomou um bom tempo e jogou meu stress para o alto, pois ir atrás de atualizações e drivers, com a instalação dos malditos não é moleza; além é claro das centenas de softwares que eu uso, me forçando a realizar verdadeiras proezas.
Essa minha intimidade com a informática vem de longa data, começou nos anos 80, quando meu irmão mais velho (parceiro e grande mestre), após arrumar um trampo numa oficina de motos, trouxe para o nosso lar um TK95 ou ZX Spectrum. Um computador pessoal que não tinha gabinete, mouse ou monitor: ainda lembro bem do bichinho, console preto com teclas cinzas macias, sem teclado auxiliar alfanumérico nem teclas de função, com o seu nome gravado ao lado de três faixas vermelha, verde, azul e amarela, seguidas da frase “Color Computer”; funcionando ligado à TV. Ele não tinha sistema operacional, apenas uma tela branca que ficava em espera para comandos de uma linguagem obsoleta chamada Basic, e não era possível escrever meu nome nessa tela, pois cada tecla pressionada lançava já um comando de programação à espera de uma sintaxe completa.
Mas o grande barato do TK95 eram os jogos, carregados através de um toca-fitas, onde fitas K7 magnéticas transmitiam ao seu processador um ruído chamado Reader, muito parecido com os de um modem de discagem telefônica, executando então umas preciosas obras de arte digitais em forma de games, que venciam grandes limitações. Com seus 48Kb de RAM e um esquema de 8 cores, o danado fazia e acontecia, nos enchendo de emoção e muitas vezes nos fazendo o queixo cair. Não dávamos nenhuma atenção aos deboches dos usuários do principal concorrente do TK95, o MSX ou Comodore 64; para nós nada se comparava ao nosso Spectrum! Viajávamos quilômetros para comprar fitas originais. Era muito foda.
Como usuários do TK95, eu e meu irmão, tivemos contato com, também, outros usuários, que eram muito raros, já que na época computador era coisa de cinema, ainda mais do TK95, um computador para um público seleto. Procurávamos os caras em busca de softwares e jogos piratas, graças a um periférico chamado Multiface M1 –sim, já naquela época as coisas tinham seu jeitinho-, o que nos permitiu conhecer uns tipos muito estranhos.
Como um figura que dormia num porão e escutava U2 o dia inteiro, e tinha um tipo de paranóia sobre conspirações as quais minha pouca idade não deixava compreender. Lembro-me de meu irmão contando que o cara lhe fez um relato de horas sobre uma mensagem subliminar no filme “A Mosca”, num momento da história em que o monstro piscou um olho para ele.
Havia um outro que eu gostava mais. Ele vivia cercado de uma grande parafernália eletrônica e manjava muito do lance, montava e desmontava aparelhos só para ver como era, e também fazia aparelhos. Eu juro que foi aquele cara que inventou o pendrive, pois um dia ele veio à nossa casa e espetou um plug estranho no MIC do aparelho de som, fazendo tocar uma música. Sei lá se minha memória não me prega peças.
Me lembro também de um sujeito um pouco mais esquisito, que aos seus 17 anos já tinha todos os cabelos brancos; vivia trancado dentro de casa, embora gostasse de pescar. Ele falava todas as frases corretamente, como se estivesse escrevendo, e falava em linguagem culta e rebuscada. Me chamava a atenção sua obsessão por organizar coisas, coisa que se era evidente em seu quarto. Ainda lembro das fitas do seu TK 95 com encartes numerados, onde se encontravam todos os nomes dos programas e jogos datilografados. O último assunto que lembro que tive com ele, foi um tipo de advertência sobre a existência do coelho da páscoa.
Esses caras eram nerds, os primeiros nerds que conheci, e pelo que sei, hoje trabalham com tecnologia e se deram muito bem na vida. Já eu...
Fiquei alguns anos usando o TK95, em seguida largando o interesse por computadores e só em 1994 conhecendo um PC, no apartamento de meu irmão que já morava sozinho ao ter conquistado a independência financeira como programador e analista de sistemas. Foi quando comecei a me interessar por softwares de edição de imagem e desenho, o que me colocou frente ao design e editoração, uma vez que eu já me interessava por desenho e artes gráficas.

Jogue os joguinhos do TK95 online.

Arquivo de jogos Spectrum.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Barulhos e Sons Ruidosos



A música é uma de minhas áreas de interesse, porém não sou um conhecedor profundo do assunto, deixo passar coisa pra caramba ao procurar informação, e deste modo, muito do que chega a mim e deveria ser trivial, é filtrado pela minha seletividade e a imensurável preguiça em buscar detalhes, tornando-se novidade e grandes descobertas. E eu também não tenho acesso a inúmeras coisas por morar onde moro, contando apenas com a riqueza de informações da internet.
É o caso de meu contato recente com um estilo musical que há muito ouvia falar e que deixava de lado: o EBM (Electronic Body Music), que acabei por procurar como fonte de inspiração a afetar minha arte, ou seja: desenho e escrita. Eu explico.
Recentemente comecei uma novela ilustrada que se passa no futuro e como gosto de escutar música enquanto produzo minhas coisas aqui, queria algo que tivesse uma ligação com o trabalho. O máximo de proximidade que tive com o tema, musicalmente falando, foi a música eletrônica e as trilhas sonoras de filmes. Exausto com repetições de bandas como Prodigy, Chemical Brothers, Fear Factory e a trilha de Blade Runner, busquei material novo, pesquisando em fóruns e comunidades, onde tomei o conhecimento de várias referências da música EBM ao público Cyberpunk, que é uma tendência de literatura ligada a especulações futuristas; ou seja, atrelada perfeitamente ao meu foco.
Não deu outra, fui logo na Wikipedia dar uma fuçada e me interei sobre o assunto, o que pareceu muito atraente, já que tenho minhas predileções por Synth Pop e Idustrial, então o lance pegou de jeito.
Entradas as informações por minhas narinas e de posse dos nomes de principais bandas da cena, me joguei para o Isohunt para garimpar. Encontrei tudo o que eu queria via Torrent e fui dormir escutando os ruídos do HD.
As discografias que baixei foram válidas, mas, olha, a cena EBM é vastíssima, tem muita coisa rolando. Bem, não é diferente com outros estilos musicais, mas quem estiver atrás de EBM para fazer uma festa de aniversário maneira, e for muito ávido, deverá reservar seu leito no manicômio. Justifico minhas palavras assim, assim, desse modo, desse e desse modo também. Além, é claro de uma boa pesquisada no Google, Soulseek e tudo mais.

Do material que avaliei estão:

Suicide Comando – É bem sinistro e sombrio, com vocais que parecem de Black Metal, e umas batidas furiosas até o talo. Fiquei bastante incomodado com as composições, o que já valeu a pena. A música “Desire” é destruidora.

Spetsnaz - Tem um vocal mais Punk, padrões marcados e mais curtos e repetitivos (característica do estilo mesmo), com umas viradas legais. Sintetizadores nervosos e poucas variações.

Nitzer Ebb - Até que muito trampado para EBM. Riffs de guitarra em meio ao turbilhão de nuances eletrônicas. São composições que achei mais puxado para o Industrial.

Grendel - Muito mais efeitos de teclados sobre as batidas que são sempre rápidas e mortíferas. Vocais processados, com efeitos bem mais eletrônicos em vários layers, o que deixa o som mais atimosférico. Achei fantástico.

Front 242 - Se comparado aos demais, bem mais calmo, com muitos elementos de Synth Pop dos anos 80. Mas nem por isso deixando de abusar dos recursos eletrônicos que se destacam.

Front Line Assembly - Muito parecido com o citado acima. Tem seus momentos bem Electro.

Enfim, todos se dariam muito bem em uma pista de dança, mas ainda assim são ótimos para a máquina da imaginação trabalhar e para a meditação. Aceleram as atividades cerebrais e abrem portas múltiplas das percepções auditivas, ao mesmo tempo em que como entretenimento não servem, pois curtir um disco inteiro de EBM é para louco.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Hora de Parar... Posso Adiar?


Neste exato momento estou com um cigarro aceso diante do teclado, logo abaixo do monitor uma carteira de super-grandes filtro, onde restam poucos cigarros. A arte do rótulo é bonita assim como a logo e as cores escolhidas.
Como muitos outros, estou me perguntado por que é tão difícil parar de fumar.
Tenho diminuído as doses de cigarros ultimamente, com o amargo objetivo de parar de vez, o que não é tarefa fácil, já que tenho este hábito desde os quatorze anos.
Não me vejo obrigado a parar pelos males que cigarro traz, porque sempre soube deles e nunca me assustei com a grande lista que o acompanha e é divulgada amplamente para que as pessoas tenham medo do consumo, muito menos me sinto na obrigação de dar lição a quem quer que seja sobre os malefícios do tabagismo. A grande verdade é que botei na cabeça que não quero levar adiante o vício, não quero estar atrelado a ele, pois sei que já estou sob seu controle, e quando tomo consciência de que estou sendo controlado por o que quer que seja, tenho por instinto o repudio. Em suma, deixar de fumar se tornou para mim um auto-desafio, que ao contrário de ser um limite que me imponho, é nada mais que um limite do qual quero me livrar.
Encontra-se carteiras de cigarros para vender em qualquer lugar e pessoas fumando há todo momento, o que torna ainda mais difícil deixar de lembrar que o a droga em questão existe.
Mas essas não são as maiores dificuldades. Quando fico muito tempo sem fumar, me torno um cara mal-humorado, irritado, agitado, meu trabalho não rende, não raras vezes tomo atitudes ásperas com meus colegas de trabalho.
E fumar é uma delícia.
Cada tragada é um prazer perfulgente o qual eu descreveria como uma das melhores sensações que eu possa me envolver no cotidiano. É maravilhoso saborear, encher os pulmões de fumaça e sentir aquelas centenas de substancias percorrerem minha corrente sanguínea instantaneamente ao acender o cigarro. O sabor e o cheiro do cigarro me trazem recordações boas; outras nem tanto, mas que também lembram o quanto de amparo ele trás nos momentos difíceis.
Quando fumo, tomo as decisões certas, vejo os ângulos diversos das situações, que sem o cigarro parecem nebulosas. É com o cigarro que eu paro e repenso as coisas, as coloco no seu lugar em minha cabeça. Não raras vezes me vejo levando o cigarro à boca como uma congratulação depois de um grande feito, também após muitas atividades prazerosas.
Fumar é aceito parcialmente pela família quando assumimos diante dela, também socialmente, e é até estimulado, quando serve como um meio de aproximação entre todos os fumantes do planeta, pois fumar é universal e une as pessoas. Fazemos ótimas amizades fumando.
Eu não dou conselhos, não faço isso nunca, mas digo a você que está começando a fumar, seja nos momentos de lazer, festa, ou o que quer que seja... não continue, pare aí mesmo, porque parar é foda, tremenda dor de cabeça.
Vou fumar mais um agora.

terça-feira, 7 de julho de 2009

O Guerreiro e o Sol


O corpo em que eu estava era como todos os demais clones do exército aliado: vinte e dois anos, grande força física, muito ágil. A consciência de todos os convocados fora transferida para driblar limitações como a idade, habilidade ou mesmo deficiência física, já que figuravam obstáculos para formar o maior exército possível. Uma das muitas tecnologias que o povo Vargus nos presenteou para nos nivelar ao inimigo; os Vargus só poderiam atuar em nossa luta contra os Nacon deste jeito, pois seguiam com devoção os juramentos de seus antepassados de nunca ferir seres da própria espécie ou de outras com as próprias mãos, ainda que estivessem sob ameaça.
Aquele corpo atlético me caia bem, era de extrema eficiência, porém era permanente e eu nunca poderia voltar a usar o original. Minha esposa e filhos, se a eles voltasse novamente, já não me reconheceriam, restando somente minha mente, que naquele momento, após dois anos combatendo, estava deformada como um rosto de barro golpeado pelas costas de um martelo.
Entre os dedos de meu punho direito, segurava um Nacon pela garganta, que mesmo com a força que eu lhe aplicava, zunia irritado como uma mosca presa no vidro de uma janela, amplificada incontáveis vezes, chegando aos decibéis de uma ópera.
Eu estava até os joelhos enfiados num amalgama de lama e sangue, montarias alienígenas abatidas, órgãos decompostos e tudo que se pode surgir deles. Meu uniforme aos trapos e minha armadura sendo arrastada logo atrás de mim. A escuridão era gelada e eu carregado de fúria e dor. Naquele profundo breu eu só via os olhos alaranjados do Nacon, de onde surgiam todos os maiores insultos de seu dialeto, todos os palavrões e injurias, os quais eu não compreendia, mas estava ciente de seus significados em uma telepatia mecânica.
Nossas tropas em toda aquela região fora dizimada, juntamente com os aliados nipônicos, os quais foram fundamentais em nossas maiores vitórias, pois, mesmo eles também habitando suas consciências em clones, tinham grandes habilidades em artes marciais, entendiam melhor as tecnologias bélicas dos Vargus e eram dotados de algum tipo de energia que desconhecíamos, também eram grandes guerreiros honrados.
Nossa derrota se deu por uma sabotagem em nossos armamentos, que fora feito por alguns de nossos próprios soldados que se venderam aos Nacon, nos colocando nas mãos do inimigo e batendo em retirada em seguida; a troco do que, nenhum de nossos mortos jamais saberiam. A traição só me fez lembrar da corruptível natureza humana.
Eu havia sobrevivido por me esconder entre as vísceras de um animal morto o qual eu rasgara o ventre com as mãos. Onde fiquei por dias, alimentando-me de pequenos pedaços de sua carne, tendo horas de vômitos e indigestão.
Mas valera a pena.
Ali estava eu com um Nacon sob meu poder, um dos poucos ralos que ficaram fazendo ronda enquanto sua grande tropa avançava no território. Eram criaturas com aparência nada amistosa e estavam longe de ter alguma beleza, tinham sua pele em gomos, como casto de tartaruga e eram duros, mas não o bastante. Peguei meu rifle sem célula de recarga, devido à sabotagem, e golpeei a cabeça do infeliz com a coronha, pus no meu braço toda a força que vertia de meus músculos e da angústia de meus colegas mortos, de tal forma que já de início rachei o crânio. Bati, bati e bati novamente, até que o zunido acabou e os alaranjados dos olhos apagaram.
Um clarão se fez e eu vi e o sol levantar-se do horizonte, as extremidades das poucas nuvens brancas que recebiam seus raios eram brasas na borda de uma folha de papel que começava a queimar.
Junto com a visão do majestoso sol do oriente erguer, ao longe, também a de centenas de silhuetas caminhando em marcha. Soltei meus braços ao longo do corpo e pendi a cabeça para o lado.
Mais uma tropa de Nacons chegava. Talvez milhares deles.
Peguei minha sacola e dela tirei uma seringa; abri uma ampola de analgésico e apliquei em minha perna ferida. Corri de um lado para o outro chafurdando na imundície e encontrei o cadáver de um colega de tropa nipônica. Não peguei seu fuzil porque sabia que estaria sem célula de recarga, mas junto ao seu corpo havia uma espada, uma katana. Os orientais gostavam de usar armas tradicionais nos combates.
Eu já podia ouvir os zunidos, milhões de zunidos , milhares de zunidos, que gradualmente ficavam mais nítidos. Não havia como fugir e também eu não o queria: mataria um, dois, talvez três, tiraria a vida dos primeiros que se aproximassem. Minha boca secou e meu corpo todo se retraiu.
Saquei a espada.
Mas a lâmina estava quebrada alguns centímetros após começar a bainha. Larguei a arma no chão, que caiu junto com toda a minha bravura: eu morreria sozinho e não poderia lutar.
Fixei os olhos no grande sol que pela metade aparecia no horizonte de onde vinha o exército de Nacons. A grande bola de fogo coroava o horizonte e recortava o céu como um planeta vizinho imponente e descomunal.
Quando um esplendor grande e azulado me focou como um holofote. Dele desceu suave uma mulher usando um longo quimono de tecido branco todo bordado com detalhes em ouro, envolta em uma áurea luminosa e limpa, cheia de pureza. A mulher era japonesa com os longos cabelos da cor da noite presos em coque, cheios de ornamentos; tinha o rosto coberto por pó de arroz, a boca vermelha e os olhos, dois estreitos rasgos preenchidos de um negro profundo, contornados de azul; seu rosto era cândido, tranqüilo, belo e jovem.
Eu já não sentia o fedor da guerra, nem os zunidos dos Nacons; os músculos relaxaram e os olhos lacrimejaram tomados de emoção. Eu sabia quem era: meus colegas japoneses falaram muito dela e eu pouco havia acreditado, omitindo aos relatos algumas piadas que passavam em minha cabeça, afinal, respeitava suas crenças. Era ela própria, a divindade prima que representava o início do império japonês: Amaterasu.
Me curvei e ela desceu até minha altura, sua mão saiu das longas mangas do quimono e tocou minha face, que se encontrou com a sua doce e acolhedora. Olhando-me fundo nos olhos disse uma frase em japonês, que eu podia entender porque aprendera boa parte do idioma com meus colegas.
- Você não morrerá, eles sim. Por tudo o que fizeram aos meus filhos.
Fechei os olhos sentindo o perfume de flor de cerejeira que vinha de Amaterasu e seu calor que parecia com o do sol, sentindo-me totalmente acolhido e seguro.
Um estrondo se fez no céu e abrindo novamente os olhos me dei com as tropas Nacons se aproximando.
Quando vi cortando as luzes múltiplas da alvorada, mais de trinta naves aliadas se alinhando em ataque. A artilharia abriu fogo contra o horizonte e as tropas inimigas torraram numa enorme cortina de fogo.
Eu sorri.

sábado, 20 de junho de 2009

Minorias Sociais Excêntricas


Somos todos iguais diante de um olhar superficial. Mas estamos vivendo entre rebanhos.
Não é difícil perceber que a sociedade é uma imensa massa consumidora da qual todos os diferenciais são anulados e cada indivíduo pertence a meras divisões sociais que fazem de si públicos classificáveis, levando consigo rótulos, que saem da fábrica e são escolhidos por seus produtos (pessoas) num enorme catálogo de tendências pré-estabelecidas colocadas diante de todos como opções de vida e de conduta a ser adotado por qualquer um que busque uma identificação coletiva.
Este é um fenômeno que rege verdadeiras manadas de seres humanos que pensam com menos intensidade sobre sua própria individualidade e fazem questão de dela abrir mão em nome de programações de condutas padronizadas, as quais se propagam em meios sociais que consideram ter algo em comum e portanto devem aderir a suas regras, seguindo-as tal uma religião paradigmática das centenas que existem e estão disponíveis, servindo para todos os tipos de gostos e pensamentos que funcionam paralelamente ao desejo de pertencer a um grupo e dele extrair motivações, tão verossímeis quanto uma gravidez psicológica, de reger suas vidas, tornando-se um modelos vivos dos exemplos comportamentais que lhes inspiram.
Tudo está, logo de início, evidente nas atitudes, que vão do palavreado, passando pelo jeito de se vestir e em todo o pensamento fabricado e pronto, que vêm a ser automáticos e logo fazem do sujeito uma persona identificada brevemente de maneira tão obvia, que lhe parece ter uma estampa na testa, quando o próprio a ostenta com orgulho.
Todos estão, de várias maneiras, enquadrados nesses moldes, ainda que pouco percebendo; todos acompanham a manada sem se dar conta de que estão se desfazendo de suas mais reais e espontâneas manifestações diante da sociedade, transformando-se em pequenos robôs de um esquema muito maior do que suspeitam, algo que se apoderou da melhor das virtudes do ser humano: a exclusividade, que foi depreciada diante de diversas categorias de ditames.
Ser excêntrico vai contra tudo isso, é ter o olhar sobre todos os demais e a si mesmo diferenciado e exclusivo. É conduzir tudo com suas próprias características, tendo como referência seu individualismo e sua auto-estima, fazendo de sua vida o que bem entende e como bem entende, pouco se importando com a sociedade que nos rodeia e fazendo pouco caso da pressão que ela faz sobre nós diariamente para nos colocar nos trilhos sujos da locomotiva implacável dos padrões aceitos e tomados como verdadeiros por muitos e que só nos levam à submissão, conformismo e à impotência diante de nossas próprias vidas.
Foi com a intenção de levantar tal questão, que eu e meu colega Rinaldo, resolvemos tomar de seu antigo dono a comunidade Minorias Sociais Excêntricas, que esteve parada durante alguns anos sem quase nenhum membro; e divulgar, buscando outros que como nós estão mais que conscientes de que são únicos e estão prontos para discutir a respeito, abrindo ainda mais nossa visão sobre o assunto, assim como conhecer essas pessoas com suas excentricidades e o quanto de autênticas elas são, pois elas são as mais interessantes.

Para entrar para comunidade, acesse esse link: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=16672802
Aguardamos você lá.